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Monday, 15 de December de 2014

DPOC x tabagismo: o ar que faz falta

Doença Obstrutiva Pulmonar Crônica atinge quase oito milhões de brasileiros, mata cerca de 40 mil por ano e sua incidência já se iguala à diabetes tipo 2. Desconhecimento é a principal causa de morte

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Da Equipe Medicando
O ator Gláucio Prata, 69 anos, é um retrato da forma como a DPOC pode transformar em drama a vida de um portador da doençaFoto: Tino ComunicaçãoO ator Gláucio Prata, 69 anos, é um retrato da forma como a DPOC pode transformar em drama a vida de um portador da doença

Quando o assunto é o alto índice de mortes causadas pelo consumo do cigarro, a maioria das pessoas pensa, imediatamente, nos vários tipos de cânceres decorrentes desse velho e nocivo hábito humano. Mas o que grande parte da população desconhece é o fato de o tabagismo ser o maior responsável pelo desenvolvimento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), um grave distúrbio respiratório que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), será a terceira maior causa de óbitos no mundo até 2020.

Doença sem cura, a DPOC resulta da fatídica associação entre bronquite crônica e enfisema. Uma vez instalada, ela age deforma silenciosa, em média por 20 anos, até que surjam as primeiras crises de tosse, produção de catarro e falta de ar (dispneia). Se não tratada adequadamente, ela prejudica progressivamente a função pulmonar e, com frequência, apresenta exacerbações, caracterizadas pela intensificação dos sintomas respiratórios. Devido ao forte fator epidemiológico em comum, o tabagismo, podem surgir outros distúrbios graves (comorbidades), como ataque cardíaco, acidente vascular cerebral (AVC – mais conhecido como derrame) e câncer.

Os números que demonstram a incidência da DPOC no Brasil são altos e revelam um cenário preocupante. A começar pelo fato de já atingir tantas pessoas quanto o diabetes do tipo 2. São quase oito milhões de portadores e cerca de 40 mil mortes por ano – a trágica estatística de um óbito a cada 15 minutos. E dentre os milhares de brasileiros que sofrem com a doença, apenas 350 mil são diagnosticados corretamente, dos quais apenas 18% recebem tratamento específico.

O histórico clínico do ator e diretor Gláucio Prata, 69 anos, é um retrato da forma como a doença pode transformar em drama a vida de um portador de DPOC. Fumante desde os 12 anos, há 16 ele luta contra os terríveis sintomas da doença, que começaram a se manifestar em 1996, durante uma viagem a Maceió, Alagoas. “Eu suava muito e emagreci rapidamente, mas achei que era por causa do forte calor que sentia”, relata.

De volta a São Paulo, sua cidade de origem, Prata procurou um médico que, ao observar a considerável redução de seu peso, solicitou um exame de HIV. O resultado, para o alívio do ator, foi negativo. Mas a tranquilidade não durou muito. Depois de passar por exames mais detalhados, como uma biópsia dos tecidos pulmonares, ele recebeu o diagnóstico de enfisema.

Posteriormente, Prata começou a apresentar fortes crises de tosse, falta de ar e cansaço – sintomas que o levaram a sucessivas internações. Foram muitos os momentos nos quais, segundo ele, enfrentou dificuldades até para realizar ações simples do cotidiano, como puxar uma gaveta. “Quando a pessoa tem uma crise, é terrível. Uma vez quis pegar uma faca e abrir a garganta para poder respirar. Em outra circunstância, o desespero foi tanto que cheguei a enfiar a cabeça dentro da geladeira”, relembra.

Durante um ano, Prata teve como companheiro inseparável um balão de oxigênio, que levava consigo até para o trabalho. “Fiquei oito meses sem conseguir atuar”, conta o ator que, nesse período, para não ficar longe dos palcos, exercia exclusivamente a função de diretor. Dessa época, ele também se recorda das brincadeiras com os colegas. “Eu falava: ‘Não adianta ninguém querer um pouco do meu oxigênio, porque não vou dar nada para ninguém.’”, diverte-se. O bom humor com que Prata narra sua história só é interrompido pelas sucessivas crises de tosse, que surgem durante as gargalhadas que finalizam cada piada. “Chorar para quê, só vai piorar a situação”, diz, ao mesmo tempo em que tenta transmitir todo o sofrimento vivido. “Não suportava andar pela Rua 13 de maio [São Paulo] porque logo me vinha uma forte crise de falta de ar e de tosse, devido à fumaça que saía das pizzarias”, descreve.

CAUSAS
Não é para menos que as crises de Prata se intensificassem quando ele inspirava o vapor produzido pelas cozinhas profissionais. A inalação frequente de fumaça, sobretudo oriunda de fogão à lenha, é um dos principais agentes que desencadeiam a doença e intensificam seus sintomas. A exposição prolongada ao fumo de tabaco, poeira, produtos tóxicos e gases poluentes completam a lista dos fatores de risco para a DPOC.

Embora o tabagismo não seja o único responsável pelo desenvolvimento e o agravamento da DPOC, ele é, incontestavelmente, o maior vilão. Isso porque a fumaça produzida pela queima do tabaco contém substâncias que inflamam as vias respiratórias e causam alterações que podem levar à doença obstrutiva crônica. E, engana-se quem pensa que o cigarro de palha é menos nocivo. Conforme explica o diretor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) José Jardim, o modo como ele é enrolado permite a entrada de mais ar, o que faz com que a pessoa inale uma quantidade maior de substâncias tóxicas.

SINTOMAS E RISCOS
A DPOC faz com que os alvéolos pulmonares se tornem ineficientes ao trocar com o sangue o oxigênio pelo dióxido de carbono, fazendo com que o ar fique retido nos pulmões de seu portador. Essa insuficiência provoca as tosses e a falta de ar, sintomas que, na primeira fase da doença, geralmente são confundidos com um simples cansaço.

Mas falta de ar, tosse e produção excessiva de catarro constituem-se apenas a ponta do iceberg de um quadro clínico que, sem tratamento adequado e com a manutenção dos fatores de risco, tende ao agravamento. Isso porque as substâncias inflamatórias que passam a circular nos vasos sanguíneos do corpo levam à exacerbação do quadro de DPOC e, consequentemente, à insuficiência respiratória grave, que representa um dos maiores riscos de morte para o portador da doença.

A DPOC a faz com que o muco produzido pelas vias aéreas torne-se mais espesso, dificultando a sua eliminação. “A fumaça do cigarro inibe o funcionamento dos microcílios que existem nas células que recobrem nossas vias aéreas e que são importantes para a eliminação do muco e de impurezas que inalamos”, explica o pneumologista do Hospital Albert Einstein Ricardo Borges Magaldi. De acordo com ele, geralmente o quadro de um paciente com DPOC evolui para fraqueza muscular, o que reduz a efetividade da tosse.

“Os pacientes mais idosos e com a doença em estágio mais avançado também podem apresentar incoordenação da deglutição [processo que conduz alimentos, saliva e líquidos, da boca ao estômago, passando pela faringe e pelo esôfago], o que pode fazer com que ocorra aspiração de conteúdo alimentar ou líquidos para as vias aéreas, com consequente desenvolvimento de pneumonia”, esclarece o médico.

Dentre as várias doenças ou complicações clínicas que podem levar a um quadro de insuficiência respiratória grave, Magaldi destaca a embolia pulmonar e o pneumotórax. Ele explica que a primeira ocorre quando um fragmento de um coágulo, geralmente proveniente dos membros inferiores, se desprende, obstruindo ramos das artérias pulmonares, prejudicando significativamente a oxigenação do sangue e a função do coração.

Já o pneumotórax ocorre, especialmente, em pacientes com enfisema bolhoso. “É quando ocorre ruptura de uma das bolhas e vazamento de ar para fora dos pulmões, ocupando o espaço da caixa torácica e produzindo colabamento pulmonar e consequente insuficiência respiratória”, elucida o pneumologista.

Quando há intensificação dos sintomas da DPOC, as crises se tornam mais fortes e, consequentemente, comprometem a realização de atividades diárias, como tomar banho e andar pela casa. Nessa etapa, torna-se alto o risco de um AVC e o desenvolvimento da doença coronariana, que pode levar a um infarto agudo do miocárdio.

EXEMPLO VIVO
As complicações ocorridas com Gláucio Prata, entre outubro de 2008 e novembro de 2009, demonstram o que ocorre durante a progressão da doença. Após 15 dias internado, devido a um infarto, pouco antes de uma cirurgia o ator sofreu um AVC. Meses depois, enquanto era preparado para outro procedimento cardíaco, ele contraiu uma infecção hospitalar, o que tornou seu estado ainda mais debilitado. “Não tinha mais antibiótico capaz de me tratar. A infecção amoleceu todos os meus ossos”, lamenta.

O ator afirma categoricamente que os problemas cardiovasculares que enfrentou não se relacionam com a doença pulmonar obstrutiva crônica ou mesmo com o consumo excessivo de cigarro. “As pessoas têm mania de culpar o tabagismo por toda doença grave que lhes atingem. Mas nem todos os problemas de saúde acontecem por culpa do cigarro”, argumenta.

Incontestavelmente, Prata faz parte de outra estatística da OMS, a qual estima que mais de 15% dos fumantes e ex-fumantes acima de 40 anos estão suscetíveis a desenvolver a DPOC, assim como os problemas cardiovasculares que dela decorrem. De acordo com o organismo internacional, os portadores da doença têm cerca de duas vezes mais chances de serem vítimas de ataques cardíacos e derrame.

“Um dos principais fatores de risco para uma pessoa sofrer um AVC é o tabagismo, o maior dentre os relacionados ao desenvolvimento da DPOC. O paciente que não para de fumar vai aumentando a chance de sofrer AVC, bem como o seu risco de desenvolver a DPOC e aumentando o risco da sua progressão”, contextualiza Ricardo Magaldi. Conforme explica o profissional, deste modo, com o passar dos anos e a evolução da doença, principalmente mantendo o hábito do tabagismo, os riscos aumentam.

DIAGNÓSTICO
Detectar a presença da DPOC em um paciente não é uma tarefa das mais difíceis, desde que, é claro, o médico conheça a doença e sua forma de evolução. Uma radiografia simples do tórax, por exemplo, só consegue detectar alterações pulmonares mais grosseiras nas fases avançadas da moléstia.

Nesse sentido, as fases iniciais de enfisema pulmonar e bronquite crônica podem ser melhor analisadas por meio de um exame de tomografia computadorizada do tórax. “Ele permite avaliar a estrutura pulmonar com maior precisão, detectando alterações das vias aéreas e a presença de pequenos cistos decorrentes da destruição dos alvéolos e pequenas vias aéreas consequentes principalmente da exposição à fumaça de cigarro”, detalha Ricardo Magaldi.

E é por isso que, aos primeiros sintomas de tosse e secreção pulmonar, que são os mais precoces, o paciente deve ter sua história clínica investigada pelo pneumologista e fazer uma espirometria – exame pulmonar também conhecido como Prova de Função Pulmonar, Prova Ventilatória ou, simplesmente, exame de sopro. “Esse procedimento nos possibilita analisar em forma de números e gráficos como está a capacidade respiratória do paciente”, define Magaldi.

O diretor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), José Jardim, ressalta que a tosse matinal, juntamente com a secreção pulmonar, costuma ser interpretada pelos fumantes como “a tossinha do cigarro” e, por isso, não recebe a devida importância pelo doente. Por isso, cabe ao médico desconfiar desses sintomas, que são os mais precoces, ante um quadro de DPOC, e perguntar ao paciente se ele fuma, quantos cigarros consome por dia e há quanto tempo.

Gastos públicos

A falta de conhecimento acerca da DPOC, tanto por parte dos profissionais de saúde quanto do governo, custa caro para o Estado. O Ministério da Saúde (MS) estima que anualmente sejam gastos aproximadamente R$ 90 milhões e que, nos últimos 20 anos, o aumento no número de casos da doença foi de 370%. Só em 2011 foram registradas mais de 100 mil internações na rede pública de saúde. Já o índice de mortes entre os portadores da moléstia aumentou 12% em cinco anos – aproximadamente 33.600 óbitos registrados em 2005 e 37.600 em 2010.

Uma possível boa notícia se deve ao resultado de uma pesquisa publicada na revista científica “PLOS Medicine”, que aponta uma redução de 50% no número de fumantes no Brasil, entre os anos de 1989 e 2010. Portanto o crescimento no número de casos da doença pode cair consideravelmente nas próximas décadas. Em última análise, a matemática em torno das variáveis “tabagismo x DPOC” pode apresentar um resultado a se comemorar:muito menos portadores da doença.

A conta é simples. Como o cigarro é o maior responsável pelo desenvolvimento da DPOC, que leva em média entre 15 e 20 anos para se manifestar, 50% menos fumantes hoje, do que há duas décadas, representa menos portadores da doença no futuro. E essa redução do tabagismo pode ser explicada, principalmente, devido ao aumento do imposto (IPI) aplicado ao cigarro, às políticas públicas de restrição ao fumo e à proibição de publicidade.

Outra boa notícia é que o lobby de entidades como SBPT junto às autoridades em saúde, em prol de políticas públicas para o manejo da DPOC, parece, enfim, começar a surtir efeito. É que em setembro deste ano, o ministro da saúde, Alexandre Padilha, anunciou a inclusão de seis medicamentos para o tratamento da doença no SUS e a criação de um protocolo clínico para nortear a assistência médica e farmacêutica quanto ao tratamento da doença.

Além da medicação, cuja promessa da pasta é que esteja disponível para a população a partir de março de 2013, as medidas anunciadas por Padilha preveem a realização de exames diagnósticos, oxigenoterapia domiciliar e a disponibilização de vacina contra influenza para os pacientes. O ministro afirma que o protocolo, já em fase de elaboração, estabelecerá critérios de diagnóstico de doenças e análises de tratamentos, com mecanismos de monitoramento clínico.

Ao mesmo tempo em que comemora esse primeiro e importante passo do governo, a SBPT faz ressalvas quanto às drogas a serem disponibilizadas pelo governo para a população. Na opinião da Sociedade, como já existem medicamentos mais eficazes para controle da DPOC em comercialização, o Ministério precisa reavaliar sua escolha. “Como não há nada, é um avanço. Mas não são remédios que indicaria para meus pacientes”, afirma o coordenador da Comissão de DPOC da SBPT, Fernando Lundgren.

CONSCIENTIZAÇÃO
Além de entidades como a SBPT, outras organizações atuam junto ao governo para levar esclarecimento à população acerca da doença e garantir acesso ao tratamento para os portadores. Esse é o caso da Associação Brasileira de Portadores de DPOC de São Paulo, organização que tem 10 anos de existência e mais de 1.000 associados. Por meio do trabalho voluntário de médicos e atendentes, a Associação, que conta com o apoio da SBPT, tem obtido suadas conquistas, dentre elas a garantia de acesso a medicamentos e a cilindros de oxigênio para os pacientes.

“Nosso objetivo é facilitar a vida do portador de DPOC, pois os benefícios que a gente consegue não são apenas para os associados, até porque não cobramos nada de ninguém”, afirma o presidente da Associação, Gilberto Alfredo Pucca. A atuação da Associação inclui visitas a instituições, como asilos para idosos, postos de saúde e hospitais, para levar esclarecimento acerca da DOPC. “O paciente não pode desanimar, ele tem de lutar, reagir. Nossa luta agora é envolvê-los na chamada reabilitação pulmonar, para que eles possam aproveitar todo o seu potencial e vivermelhor”, declara o presidente.

Para garantir mais essa conquista, a Associação terá de superar outro desafio: montar, junto às universidades que tenham cursos de educação física e de fisioterapia, núcleosde atendimento aos portadores da DPOC. “Eles estão mais próximos das residências do pacientes e ainda poderão realizar um trabalho científico gratuitamente”, destaca Pucca.

Há quase seis anos, Gláucio Prata é membro da Associação, onde se deparou com estórias semelhantes à sua e, segundo ele, com relatos ainda mais dramáticos. O ator afirma que foi a partir dessa experiência que ele passou a ter mais consciência dos malefícios da doença. “Foi a primeira coisa superimportante para mim, porque fiquei em contato com vários portadores. Eu via a luta daquelas pessoas que, apesar de doentes, estavam pensando no próximo. É uma coisa muito bonita”, diz.

Desde que parou de fumar, em 2003, Prata não enfrenta mais as fortes crises que o levava às constantes internações. Mas ele sabe que viverá para sempre com as consequências que os três maços de cigarro que consumia diariamente, ao longo de 53 anos, lhe trouxeram. “A DPOC é uma das doenças mais terríveis que já vi. Se o coração falhar ele nos mata, porque ele simplesmente para de bater e pronto. Mas a DPOC nos tira lentamente uma das coisas mais preciosas: a capacidade de respirar”, analisa o ator.

*Matéria vencedora do 1º Prêmio SBPT de Jornalismo em Saúde, realizado em dezembro de 2012 pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia em parceria com o laboratório Pfizer.

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