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Monday, 6 de June de 2011

Jovens que trabalham têm mais chance de se tornarem fumantes

Nível de escolaridade, preços baixos e consumo de álcool estão entre os fatores que contribuem para a disseminação do tabagismo entre eles

Da Equipe Medicando

Jovens que trabalham têm maior chance de fumarFoto: ReproduçãoO cigarro é uma droga que causa dependência e influencia principalmente os jovens, pelo fácil acesso e por ser comercializado por um baixo valor.

Por Fernanda Brandão


A falsa impressão de que o hábito de fumar está associado à independência e à liberdade é uma das principais causas de crianças e adolescentes entrarem no vício. Essa é a conclusão de um novo estudo, conduzido pela médica epidemiologista Marinel Mor Dall’Agnol, da Universidade Federal de Pelotas (RS), que mostra que o tabagismo é mais frequente entre os jovens que já possuem uma vida profissional ativa.

“Aqueles que trabalham têm quase duas vezes mais chances de ser fumantes do que os que não trabalham. Esta informação já foi demonstrada em outros países, mas é inédita em estudos brasileiros”, afirma Marinel, uma das autoras do trabalho “A associação entre trabalho de crianças e adolescentes e tabagismo”. O estudo, conduzido na região sul do Brasil, observou que a maioria dos jovens avaliados começou a fumar entre 13 e 15 anos, sendo apenas 20% entre 7 e 12 anos, mas que, em média, o hábito tem início em torno dos 15 anos.

A união entre o trabalho e o cigarro remete a uma sensação de maturidade, de início da vida adulta. Os jovens com personalidade forte são estimulados a buscar comportamentos rebeldes e transgressores, o que necessariamente remete à ambição pela independência – uma das grandes motivações para começar a trabalhar, ainda em idade escolar.

“No estudo apontamos dois alertas para a proteção à saúde nessa fase da vida. Em primeiro lugar, o tabagismo é um dano potencial a ser incluído nas consequências do trabalho infantil. A seguir, o ambiente de trabalho é um local importante para ações de prevenção e eliminação do hábito de fumar entre os jovens”, revela.

Como não há uma classificação específica para definir quem pode ser taxado como fumante, a pesquisadora estabeleceu seu próprio padrão. “Em nosso estudo, consideramos fumante aqueles haviam fumado pelo menos um cigarro nos últimos 30 dias”, explica a médica.

Fatores de risco adicionais
Outros fatores também influenciam na decisão das crianças e dos adolescentes em procurar o cigarro, como o consumo de bebida alcoólica. Quem consumia álcool tinha probabilidade 50% maior de se tornar fumante. Marinel diz que não avaliou exatamente o motivo dessa associação, mas concluiu que esse risco mais elevado manteve-se após considerar o nível sócio-econômico, os problemas familiares, a escolaridade, os problemas de comportamento e o trabalho dos jovens.
 
O estudo não encontrou influência da renda familiar no tabagismo infantil, mas, em contrapartida, as mães que possuíam escolaridade avançada protegeram mais os filhos contra a droga – um dado recorrente de outras pesquisas. Porém, quando a mãe não morava na mesma casa que o pai, a probabilidade de o filho ser fumante aumentava. “A convivência com problemas familiares, como o uso excessivo de bebidas alcoólicas ou de drogas e a ocorrência de acidente grave também aumentaram o risco da criança e do adolescente em se tornar tabagista”, afirma Marinel.

A médica lembra que a relação do uso de cigarro por jovens também foi encontrada em outros estudos e que a aprovação do vício de fumar pelos pais e pelos irmãos mais velhos é um incentivo ao tabagismo das crianças. Da mesma forma, há evidências de que o fumo materno durante a gravidez aumente a probabilidade de o filho, de ambos os sexos, adquirir o vício, independente da fase em que se inicie o consumo da droga.

A mulher que permanece com o hábito de fumar durante a gestação corre sérios riscos de abortar, tem mais chances de conceber um bebê com um tamanho menor, baixo peso e com defeitos congênitos. Os filhos de viciados em cigarros adoecem duas vezes mais do que os filhos de não fumantes.

Ajuda da escola
O estudo apontou também que, ao contrário do que muitos pais pensam, não é necessariamente no período escolar, por influência dos amigos, que os filhos adquirem o hábito de fumar. A ocorrência foi maior entre as crianças e adolescentes que não frequentavam a escola.

“O atraso escolar, considerado entre as crianças que frequentam a série inadequada para a idade, foi a variável que apresentou maior força de associação com o tabagismo, aumentando em seis vezes a possibilidade de a criança ser fumante. Logo, frequentar a escola, por si só, é positivo para manter o filho longe do tabagismo”, alerta a médica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que o tabagismo entre os jovens seja tratado como uma doença pediátrica. No entanto, Marinel entende que esse problema precisa ser enxergado e enfrentado pela saúde pública de forma mais clara e abrangente. “O fumante é um dependente químico que precisa de tratamento especializado para abandonar o vício”, enfatiza.
 
O cigarro é uma droga que causa dependência e influencia principalmente os jovens, pelo fácil acesso e por ser comercializado por um baixo valor. Como forma de tentar sufocar lentamente a indústria tabagista, que já investiu milhões em publicidade, desde o ano 2000 a legislação brasileira proíbe a veiculação de propagandas do produto e, com o mesmo intuito, também é proibida por lei a venda de cigarros a menores de 18 anos, em qualquer estabelecimento.
 
Apesar das medidas já adotadas pelo governo, a pesquisadora e outros especialistas defendem outras, como maiores taxas de comercialização do produto e a garantia de mais espaços públicos livres do tabaco.  “Como o cigarro tem alta capacidade de causar dependência e é uma droga altamente letal, em longo prazo, há a necessidade de reposição dos consumidores que vão sendo perdidos, por morrerem com doenças causadas pelo tabagismo”, explica Marinel.

No entendimento de outros estudiosos, como a diretora executiva da organização não-governamental Aliança de Controle ao Tabagismo (ACT), Paula Johns, as restrições até hoje impostas não são suficientes para inibir o consumo do cigarro ou mesmo as investidas da indústria tabagista. “Hoje a promoção do tabaco é no corpo a corpo. Eles (indústria) mandam promotores a eventos, bares, casas noturnas, justamente para atrair novos fumantes, ou seja, os jovens, já que os fumantes antigos muito dificilmente trocam de marca”, afirmou a socióloga em entrevista.
 
Dra. Marinel avalia que, para a indústria, o ideal é que novos consumidores sejam captados entre as crianças e os adolescentes, por gerarem mais lucro, pois eles consumirão o produto por mais tempo, além de estarem mais vulneráveis à dependência do que pessoas que conhecem a droga na fase adulta. “Infelizmente, um cigarro para o iniciante é um ato simbólico de não ser mais uma criança e o que começa como um ato de rebeldia e busca de independência pode rapidamente transformar-se em vício por toda a vida”, finaliza.

A epidemiologista alerta, ainda, para outras desvantagens em ser um fumante, como adoecer com uma frequência duas vezes maior que os não fumantes. Os tabagistas também possuem menos resistência física e menor desempenho na vida sexual. O aspecto físico torna-se menos atraente pelo fato de envelhecerem mais rápido, a pele fica enrugada e os dentes amarelados, além de permanecerem com odor de fumo.

Marinel e sua equipe entrevistaram uma amostra de 3.269 crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos, em seus domicílios, acompanhados de suas mães, representantes da população urbana de Pelotas, cidade do interior do Rio Grande do Sul. De acordo com pesquisadores, considerando as variáveis que envolvem os entrevistados, esse estudo, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, pode ser aplicado a crianças e adolescentes de outras regiões do país.

 

Fonte: Revista Medicando - Saúde em Movimento

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