Carregando...

Monday, 21 de May de 2012

“A técnica do Linfonodo Sentinela não serve em pacientes que realizaram quimioterapia primária”

Estudo desenvolvido pelo médico nuclear Adriano Vigário constatou que a técnica combatente ao câncer de mama era falha

“A técnica do Linfonodo Sentinela não serve nas pacientes que realizaram quimioterapia primária”Foto: ReproduçãoTécnica contra câncer de mama pode evitar alastro da metástase

Além de terem de se empenhar na cura do câncer de mama, na última década, os médicos também estão mais atentos pela técnica do Linfonodo Sentinela, responsável por evitar o alastro da metástase em casos de câncer de mama. Para o médico nuclear Adriano Vigário, cuja pesquisa em 2003 revelou que quimioterapia pré-operatória interfere na detecção de linfonodos axilares, localizar e remover esses gânglios ainda durante a operação evita muitos problemas na região axilar das pacientes.

O Portal Medicando conversou com o autor do artigo referente à pesquisa, Dr. Adriano Vigário:

Portal Medicando: O que é o Linfonodo Sentinela?
Dr. Adriano Vigário: O Linfonodo Sentinela é uma técnica que foi desenvolvida há alguns anos na Itália e a sua aplicabilidade existe com intuito de evitar o esvaziamento axilar nas pacientes portadoras de câncer de mama. Podemos questionar o que seria isso e qual a importância disso. Atualmente a gente sabe que as pacientes que possuem câncer de mama, após a realização da mastectomia, retirada dos linfonodos axilares (os gânglios que têm na axila) causando muita morbidade, os pacientes ficam muito doentes com aqueles braços bastante inchados e isso traz uma qualidade de vida bastante reduzida. Então, essa técnica de Linfonodo Sentinela, serve para esvaziar ou tirar os gânglios da axila, somente nas pacientes que realmente necessitam e que já possuam algum comprometimento do câncer alastrado para a axila.

Portal Medicando: O que é a linfocintilografia?
Dr. Adriano: A linfocintilografia é uma técnica usada para descobrir qual é o Linfonodo Sentinela na axila. Quando só existe um Linfonodo Sentinela na axila, é muito difícil descobri-lo. O Linfonodo Sentinela é o linfonodo a drenar as metástases, é a primeira estação de drenagem das metástases. Então o que é que nós fazemos? Se esta estação estiver comprometida, todo o resto da axila provavelmente está comprometida. Se esta estação, se este linfonodo não estiver comprometido, então, provavelmente toda a  axila não está comprometida. Então, o Linfonodo Sentinela é capaz de predizer o status axilar, se a axila está ou não comprometida. E a técnica da linfocintilografia, ela é capaz de descobrir qual é esse Linfonodo Sentinela, já que injetamos um material radioativo na mama, provavelmente na região periaureular e perietomoral e esse material vai drenar a axila para a realização de um exame de imagem que se chama cintilografia que é uma gama/câmara onde nós vamos observar qual é o ponto captante na axila. Através desse ponto captante nós vamos identificar a pele, e depois, durante o ato operatório, através de um plugue de mão, nós vamos naquela região daquela pele marcada identificar qual é o linfonodo comprometido para a gente ressecar, mandar para o anatopatológico ou para o congelamento para ver se ele está comprometido ou não.

Portal Medicando: E a dissecção axilar?
Dr. Adriano: A dissecção axilar é o ato cirúrgico dentro do ato operatório, que você vai realizar a incisão para procurar o Linfonodo Sentinela. Então a dissecção é o corte na região axilar, é a busca dos linfonodos. Dissecção quer dizer a cirurgia daquela região.

Portal Medicando: Qual foi a motivação para realizar esse estudo?
Dr. Adriano: Bom, o que motivou a gente fazer esse estudo, é que nós havíamos percebido na nossa prática química, que as pacientes que eram submetidas à quimioterapia primária, a quimioterapia antes da cirurgia, tinham resultados um pouco discrepantes em comparação àquelas pacientes que realizavam quimioterapia somente depois da cirurgia, ou seja, iam para a cirurgia sem quimioterapia. Nós começamos a perceber que, nas pacientes submetidas à quimioterapia primária, os resultados do Linfonodo Sentinela não prediziam o status axilar como a gente imaginava, talvez, invalidando a técnica. Então isso ajudou a gente a estudar o processo. Precisávamos de uma casuística maior para ver se era realmente esse o fator que estava atrapalhando.

Portal Medicando: Quanto tempo levou desde a fase teórica até os resultados finais dos testes?
Dr. Adriano: Foram dois anos investigando as pacientes, porque existem os critérios de inclusão/exclusão, que podem aparecer nas pacientes. Então, foram dois anos de luta para conseguir esses pacientes todos e depois os resultados.

Portal Medicando: Quais diferenças surgiram entre os grupos de pacientes com e sem quimioterapia pré-operatória?
Dr. Adriano: Então, o trabalho acabou confirmando, ratificando  o que a gente já estava imaginando. As pacientes que eram submetidas à quimioterapia primária apresentaram resultados falso-negativos do Linfonodo Sentinela, ou seja, ele não era capaz de predizer o status axilar de forma que provamos, através desse trabalho, que a quimioterapia primaria invalidava a técnica.

Portal Medicando: Qual foi, aproximadamente, a porcentagem para a divisão dos dois grupos de pacientes?
Dr. Adriano: Quando selecionamos os pacientes, é preciso sempre tentar manter os dois grupos aproximadamente iguais. À medida que a gente vai aumentando o numero de pacientes, a estatística trabalha por si só para dividir esses pacientes, então a idade acaba ficando igual nos dois grupos, o tamanho do tumor, tudo isso. Então nós separamos o grupo que não tinha feito quimioterapia primária do grupo que tinha feito. Lembro-me que os grupos eram parecidos em números e as grandes diferenças que surgiram é que os resultados foram diferentes nesses dois grupos.

Portal Medicando: Como a comunidade reagiu ao artigo e aos resultados?
Dr. Adriano: Olha, logo que lançamos o artigo houve um impacto muito grande, pois até então, não se imaginava que a quimioterapia primária pudesse atrapalhar na detecção do Linfonodo Sentinela. Então tivemos muitos questionamentos, nos congressos fomos bastante questionados se realmente era ou se não era verdade, mas a estatística trabalha sempre ao nosso favor. Começaram a surgir outros trabalhos no mundo inteiro, que acabaram mostrando realmente o que a nossa pesquisa pequena tinha mostrado, que a técnica do Linfonodo Sentinela não serve nas pacientes que realizaram quimioterapia primária.

Portal Medicando: E hoje? Apareceu alguma técnica nova? Há algum estudo novo sobre essa área?
Dr. Adriano: Não, a gente continua acreditando que o Linfonodo Sentinela não deve ser realizado nas pacientes que realizam quimioterapia primária. O que nós tivemos de evolução, hoje, é que a qualidade da imagem é melhor, as técnicas de detecção são melhores, que as quimioterapias são melhores, mas o que o artigo provou naquela época, há praticamente oito anos atrás, ainda está válido para hoje.

Portal Medicando: Qual é a diferença do Brasil em relação a outros países na utilização do procedimento da biópsia do Linfonodo Sentinela?
Dr. Adriano: O Brasil já evoluiu, não só na economia, mas na medicina também. A técnica que a gente usa aqui foi importada dos países de primeiro mundo. Então, hoje, nós usamos a técnica utilizada em todos os países e a técnica é exatamente igual. Não muda nada.

Categorias