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Wednesday, 14 de December de 2011

Doenças negligenciadas

Por Dr. Valdir Amato

  Prof. Dr. Vicente Amato e Prof. Dr.: Valdir Sabbaga Amato

Vamos deixar uma coisa clara: sem a indústria farmacêutica e pesquisas originadas nela, muitos remédios não existiriam, incluindo vários antibióticos. Pesquisas podem começar em Universidades e, depois, serem desenvolvidas ou tornadas economicamente viáveis pela indústria, que habitualmente exagera a sua importância e seus investimentos. Num livro recente, Marcia Angell, a antiga editora-chefe do New England Journal of Medicine, analisa os balanços das empresas e percebe que elas colocam as verbas de propaganda e marketing como se fossem empregadas em estudos, o que no mínimo é malandragem. Dito isto, não somos do time que põe a culpa dos custos da assistência médica exclusivamente na ganância da indústria farmacêutica. Na verdade, a maior parte dos custos inúteis decorre de defeitos dos sistemas de atendimento, com falta de investimento em programas de qualidade e educação – mas isto é assunto para vários outros artigos, se a paciência dos leitores permitir continuarmos tradicionais resmungos.

Mas é necessário reconhecer que a meta de qualquer entidade comercial é o lucro. Não que isto seja um pecado. A noção que muitos da Igreja católica, dos Partidos comunistas que sobraram e de gente do Partido dos Trabalhadores (PT) têm não é totalmente correta. Sem lucro qualquer firma vai à bancarrota. Só governos não vão à falência, até porque podem emitir dinheiro; contudo, as consequências de governos perdulários o povo paga logo depois. As indústrias farmacêuticas adoram fazer medicamentos para pessoas que possam pagá-las e para doenças que os consumam de maneira constante. As estatinas, por exemplo, constituem excelente negócio para quem as vende. São drogas muito pouco tóxicas, eficientes e que precisam ser tomadas por muito tempo, provavelmente pelo resto da vida dos necessitados. A síndrome metabólica, que faz com que sejam usadas, é muito comum em todas as populações, inclusive nas mais ricas que representam as quem podem comprá-las. Outro exemplo: o sildenafil e semelhantes, igualmente com poucos efeitos colaterais e cujo emprego seguramente cada vez aumenta mais, são os tipos de fármacos que os cidadãos que precisam compram, até com sacrifícios, porque a gratificação que dá vale a pena.

 Vamos comparar com antibióticos: são utilizados por tempo limitado, com frequência apenas em hospitais quando para tratar doenças graves e por via endovenosa, com controle por comissões de controle da infecção hospitalar. Pior que isto, com tempo de vida limitado: a resistência é inevitável, uma questão de tempo, aparecendo e tornando o antimicrobiano menos útil, até fazê-lo comercialmente desinteressante. De um lado, isto é conveniente para a indústria farmacêutica, porque cria a obrigatoriedade constante de inventar novos produtos. Também é muito conveniente quanto a patentes – quando termina a duração delas e outros podem fazer genéricos, metade da vida útil do remédio já acabou. Por outro lado, se formos analisar do ponto de vista de mercado, são meios terapêuticos intrinsecamente menos lucrativos.

Se levarmos em conta meios terapêuticos para doenças que acometem poucas pessoas, fica evidente o pequeno interesse comercial das indústrias. Tanto isto é verdade que a Federal Drug Administration tem um programa para orphan drugs (drogas órfãs), que dá incentivo e vantagens para os fabricantes do que é destinado a mercado restrito pela escassez do número de enfermos. Porém, não é basicamente destas que estamos falando. O que preocupa são boas soluções para doenças comuns, que ocorrem em países subdesenvolvidos e que não podem ser compradas por pessoas muito pobres. São males da zona tropical, como leishmanioses, paracoccidiomicose ou doenças de Chagas e do sono, só para citar algumas. Para todas elas existem recursos que variam entre bons, mas de aplicação difícil, de mais ou menos valiosos ou até decididamente medíocres. Para a doença do sono, lembramos que o mais recente medicamento, eflortina, quase deixou de ser disponível.

Não temos ilusões quanto às pesquisas para estes fármacos por indústrias farmacêuticas: pode até ser que alguém lá os faça escondido do departamento de marketing e vendas. Estas diligências precisam ser efetuadas e em países como o Brasil contamos com Universidades ou instituições públicas que possam desenvolver tais estudos. Inquieta-nos é que são trabalhos complexos, que começam na síntese química e prosseguem na testagem através das famosas fases I, II e III. Por aqui, ao contrário do que sucede na Índia, apenas como cotejamento, não possuímos tradição neste campo de investigação científica. O que não quer dizer que isto seja impossível. Requer incentivo. Na verdade, ninguém vai resolver os problemas por nós – pelo menos não no tempo e maneira adequados. Não estamos falando só de medicamentos; profilaxias vacinais, além de outras maneiras de tratar, diminuir danos e atender pessoas com patologias desprotegidas precisam ser desenvolvidas. Se nas nações que têm metodologias apropriadas estas questões não forem valorosamente enfrentadas, com base em pesquisas organizadas, as carências simplesmente não serão resolvidas. De fato, não estamos encarando somente doenças descuidadas, mas serviços e sistemas de saúde negligenciados – que é o que apuramos em grande parte do mundo.