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Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental. Desenvolve trabalho para o tratamento da obesidade (e também com acompanhamento de pré e pós-operatório de cirurgia bariátrica, com equipe multidisciplinar), da dependência química, dos transtornos alimentares e do transtorno dismórfico corporal, das compulsões (comida, exercícios físicos, compras, trabalho, tecnologia, jogo, substâncias, colecionismo, sexo), além de depressão, transtornos de ansiedade e estresse. Responsável pelo blog Saúde Mente e Corpo (http://mariacristinapsicologa.blogspot.com.br/).

Especialização(ões)
Psicologia Cognitiva;

Monday, 12 de August de 2013

Transtorno dismórfico corporal

Todos têm uma característica física de que não gostam, mas quando a insatisfação com uma ou várias partes do corpo se torna obsessão e motivo de sofrimento insuportável, pode indicar um transtorno

No campo das ciências médicas e biológicas, a doença precede o diagnóstico e o tratamento, e é assim também na área da psicologia. Muito se tem a pesquisar ainda, tanto em relação às enfermidades do corpo, como câncer e Aids, quanto aos males da alma. Uma doença física ou mental pode ter mais de uma causa e, em relação ao transtorno dismórfico corporal (TDC), há várias hipóteses, poucas certezas e um longo caminho em termos de cura.

O TDC caracteriza-se por insatisfação em relação a uma ou mais partes específicas do corpo, o que provoca sensações de desconforto e ansiedade, que pode evoluir para uma não aceitação do aspecto físico, mesmo que a percebida imperfeição seja mínima ou inexistente. A pessoa então começa uma via-crúcis a consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos, em busca de solução para o seu problema. Como o desconforto é subjetivo, os resultados das intervenções frustram o indivíduo, que volta a procurar os mesmos profissionais ou tentar outros, numa busca inútil.

O transtorno tem origens multifatoriais, ou seja, não se pode apontar uma causa apenas. Concorrem para o aparecimento do TDC fatores neurobiológicos, provocados por um desequilíbrio químico no cérebro. Há os fatores psicológicos, relativos a características de personalidade, também os sociais e culturais, além dos ambientais e familiares.  A síndrome provoca significativo sofrimento emocional e prejuízo no desempenho em importantes áreas da vida, desde a profissional aos relacionamentos afetivos, familiares e sociais.

Num mundo globalizado, as diferenças se diluem. O mercado é um poder visível nos outdoors e anúncios, no cinema, na gastronomia, na cultura e na política. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, entre estas, a humanidade. A vida de boa parte da população do planeta virou uma corrida maluca em direção ao consumo, ao acúmulo de bens e serviços que se acredita precisar sem mesmo saber por quê. Aí entra o corpo, como um objeto a ser modificado, melhorado, transformado para ser amado, reconhecido. Mas de quem é este corpo, já que quem o habita não o aceita? Esta é uma das questões apresentada pelo TDC.

A pressão exercida pelos pais, em relação à aparência física deles mesmos e dos filhos, contribui para o desenvolvimento deste distúrbio. Pais exageradamente críticos, sempre envolvidos com dietas e exercícios físicos, tratamentos dermatológicos e cirurgias plásticas, passam a mensagem de que o importante é o exterior, que beleza é garantia de sucesso. Mas a criança ou adolescente pode desenvolver insegurança, problemas de autoimagem e autoestima e outros mais graves se sofrer abuso psicológico e/ou físico, se os pais forem ausentes ou indiferentes às necessidades deles e não fornecerem os cuidados básicos para um crescimento saudável.

Isto não significa que filhos de pais que encaram a questão estética de forma totalmente diferente não desenvolvam o TDC. Ainda há os outros fatores desencadeantes, já mencionados. Pais cujos filhos evitam o contato social, trancam-se no quarto e manifestam baixa autoestima, dizendo-se feios e desinteressantes, devem averiguar se o jovem não é vítima de bullying. Se não for o caso, é indicado procurar orientação a respeito de outros distúrbios, como depressão, ansiedade, fobia social. O diagnóstico correto é fundamental para o tratamento, que, quanto mais precoce, melhor o prognóstico.